DESPROPÓSITOS

"(...) No escrever o menino viu que era capaz de ser noviça, monge ou mendigo ao mesmo tempo. O menino aprendeu a usar as palavras. Viu que podia fazer peraltagens com as palavras. E começou a fazer peraltagens. (...)"
(Manoel de Barros)

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Eu sou a Anna Barbara. Anna com 2 "n"s, Barbara sem acento. Como a minha tataravó.

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Arquivos

Agosto/Setembro 2001
31 de Outubro de 2001 - 21h38

"Por que só vens de madrugaadaaa...
E nunca estás por onde vooou(...)"

Cathy, você sabia que a música "Lua no Dia" do Flávio Henrique (e do Ronaldo Bastos também, né?) foi gravada pelo Ney Matogrosso? Eu não sabia que ele tinha gravado esta música, não. Eu sabia que ele tinha gravado uma música do Flávio Henrique chamada "Olhos de Farol", que até ficou sendo o nome do show e do CD. Eu sempre fiquei curiosa em saber que música era essa. Pois então... Eu acabei de ir na "Usina do Som" e procurei por ela. Apareceu esta página e tudo que eu tive que fazer foi clicar na música sete: "Olhos de Farol". Então, Cathy, eu descobri que "Olhos de Farol" é "Lua no Dia"!

Vá até e ouça... Depois me fale o que você achou. Eu gostei de "Olhos de Farol", mas "Lua no Dia" ainda é mais bonita porque quem canta é a Marina Machado e é difícil alguém cantar mais lindo do que ela.

31 de Outubro de 2001 - 19h37

"Era uma caasa muito engraçaada
sol sol sol fáá ré fá fá fá mii dó
mi mi fá sool mi dó lá dó sool
sol sol sol fáá ré fá fá fá mii..."

O meu "para casa" era bem desafiador: aprender "A Casa" de ouvido. Apesar de ouvir esta música do Vininha desde criança, eu não considerei esta tarefa nem um pouco fácil. E não foi. Mas eu fiz o dever de casa e levei a partitura construída por mim para a aula de hoje. E toquei as notinhas... e elas estavam corretas!

Parece que o Dido me venceu pelo cansaço. Ele insistia, toda aula, para que eu repetisse um pedaço da lição sem olhar a partitura. Tocar algo sem o apoio das notas impressas no papel foi sempre a parte mais temida em todas as minhas aulas com ele. Só que parece que a tática dele deu certo: agora eu posso dizer que já tirei uma música de ouvido!

Mas como o Dido está sempre me desafiando, ele me passou um outro exercício: aprender "O Pato" sem partitura também. Esta música é mais difícil que a outra. Tem até sustenidos, ele me disse. Mas eu aceitei o desafio. Que venham "O Pato" e "A Foca" e "A Pulga" e "O Gato"... Que venha toda "A Arca de Noé"!

31 de Outubro de 2001 - 13h17

"Hoje ´stou triste, ´stou triste.
´Starei alegre amanhã...
O que se sente consiste
Sempre em qualquer coisa vã.

Ou chuva, ou sol, ou preguiça...
Tudo influi, tudo transforma...
A alma não tem justiça,
A sensação não tem forma.

Uma verdade por dia...
Um mundo por sensação...
´Stou triste. A tarde está fria.
Amanhã, sol e razão."

(Fernando Pessoa)

28 de Outubro de 2001 - 14h36

"O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma cousa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio."

(Alberto Caeiro)

27 de Outubro de 2001 - 06h55

"(...) E se eu lhe entregar meu coração
E meu coração for um quindim
E se meu amor gostar então
De mim"

(E se - Francis Hime e Chico Buarque)

26 de Outubro de 2001 - 03h11

Hoje eu tenho o direito de não conseguir dormir.

25 de Outubro de 2001 - 13h20

"(...) em Minas, entender logo já é muito tarde, o mais seguro é antecipar (...)"

(Ivan Ângelo, em "A Festa")

25 de Outubro de 2001 - 12h43

Ana Maria Gonçalves. Guardem bem este nome: Ana Maria Gonçalves. Depois, quando ela for tão famosa quanto a Cecília Meireles, não digam que eu não avisei!

24 de Outubro de 2001 - 21h03

Feliz Aniversário, Goiânia.

24 de Outubro de 2001 - 19h49

Acabei de descobir que a mulher do Jean-Pierre Rampal, o flautista virtuose que popularizou a flauta como instrumento solo, se chamava Françoise! Minha flauta tem o nome da amada do mais famoso flautista do mundo!

24 de Outubro de 2001 - 10h20

"Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,
E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.
Amar é pensar.
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
Tenho uma grande distração animada.
Quando desejo encontrá-la
Quase que prefiro não a encontrar,
Para não ter que a deixar depois.
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero. Quero só
Pensar nela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar."

(Alberto Caeiro)

Este é o poema que eu queria ter escrito. Eu gosto tanto - mas tanto - dele e o entendo tão bem que às vezes me dá a sensação de que, no masculino, ele é meu. Se Pessoa tivesse escrito apenas este poema, eu já iria amá-lo completamente. Assim mesmo, como eu o amo hoje.

23 de Outubro de 2001 - 23h13

"A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros acho que nem não misturam. Contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo as coisas de rasa importância. (...) Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data."

(Guimarães Rosa, em "Grande Sertão: Veredas")

23 de Outubro de 2001 - 19h38

Lindo, encantador, artístico, poderoso, lá está ele, emoldurado e protegido por vidro, o cartaz de Cambaio na parede do meu quarto!

23 de Outubro de 2001 - 01h25

Depois de receber todos estes emails - tão leves - eu acho que descobri porque é que eu gosto de ficar na chuva. A resposta é tão simples! Como eu não tinha reparado nisso antes? Eu gosto de ficar na chuva porque isso me faz feliz. É esta a explicação. Inteira. E eu desconfio que vocês, que me mandaram estas histórias cheias de sorrisos, vão concordar comigo, não vão?

23 de Outubro de 2001 - 00h22

"Quem nunca tomou banho na chuva não gosta de poesia à flor da pele, né?"

(NaTynha, me contando que também é uma menina chuvosa)

22 de Outubro de 2001 - 23h52

"Anna,

A chuva mais chuva que eu já tomei foi na Praça da Liberdade. Iluminada de Natal.
Parece conto, invenção, coisa da Carochinha, mas é tudo verdadeiríssimo!
Foi depois de um show do Cálix no Bahia Shopping, no meio de uma apresentação de Romeu e Julieta com o grupo Galpão.
Eu já estava sem sapato porque estávamos todos sentados no chão e tava me machucando. Começou a respingar e ninguém se moveu. Todos hipnotizados pela beleza do espetáculo. Só que de repente começou a chover uns pingões e eles avisaram que parariam o espetáculo, pois os atores poderiam escorregar das pernas-de-pau e cair.
A Fran tinha uma sombrinha bem pequena na bolsa. Eu e o André éramos desabrigados e o carro estava longe, lá perto do Palácio colorido.
Falei logo que eu ia na chuva. Tentar me espremer debaixo da sombrinhazinha era inútil. Pedi que levassem minha bolsa e sandálias. Comecei a brincar na chuva e em 10 segundos estava ensopada. A Fran ficou empolgada com a minha alegria e veio também. O André ficou lindo com 2 bolsas, 4 sandálias e uma sombrinha na mão.
Pulamos em todas as poças, dançamos, corremos.
Pra atravessar a rua, brincamos com os carros todos parados, porque belohorizontino não sabe dirigir na chuva.
Infelizmente chegamos no carro e o André queria ir embora rápido. Durou pouco, mas o suficiente pra ser inesquecível.

Um beijo chuvoso,

Cathy"

Eu sabia que a Cathy tinha uma história de chuva toda encantada pra contar! Só uma coisa me intriga neste caso: onde é que eu estava neste dia?!

22 de Outubro de 2001 - 23h23

Meu irmão - que sempre foi muito vivo e esperto, que passou em segundo lugar num vestibular para Engenharia Civil na UFMG, que foi reconhecido pela faculdade como o melhor aluno do semestre passado, que é famoso por seus comentários inteligentes - se sentiu insultado por eu ter colocado aqui o nosso diálogo sobre a chuva. Então eu vou explicar o que eu pensei que nem precisaria: não me passou pela cabeça em nenhum momento que meu irmão não soubesse o que é "tomar chuva"! É lógico que ele sabe! Mas ele, um menino compenetrado, que acha que quem tem teto deve usá-lo, achou mais provável a nossa tia beber a chuva num copo do que ficar na chuva se molhando! E isso foi o que me fez achar nossa conversa tão engraçada! Viu, Brown? Nunca iria ridicularizar você, não. Mesmo se eu quisesse, não teria jeito.

22 de Outubro de 2001 - 22h00

"- Bruno, hoje a Tchê me mandou um email tão lindo me contando das vezes que ela tomava chuva!
- A Tchê tomava chuva?
- Toma até hoje.
- Mas... ela bebe a chuva? Como assim?"

Meu irmão é engenheiro. E não toma chuva. Deu pra perceber, né?

22 de Outubro de 2001 - 20h50

"Tão bom, tão bom que não resfria, lava a alma!" Quem me mandou este email chuvoso foi a Telinha, que também gosta da chuva! Ela me contou lindas histórias molhadas que aconteceram no sertão, em Recife e quando ela tomava licor de papagaio para não gripar! Olhem só o que ela tem para contar:

"Meus pais moraram no sertão pernambucano, durante alguns anos, antes de eu nascer. E chuva lá é raro, vc sabe. Pois nessa cidade - Ouricuri, tá no mapa e é nome de cacto - tempo nublado é "bonito para chover". E quando chovia, todas as crianças corriam para a rua, para tomar banho de chuva.
Uma vez, eu e meu amigo-compadre-anjo-da-guarda João tomamos aquele aguaceiro. Andando na rua e cantando brasília amarela, em pleno centro de Recife. Tão bom, tão bom que não resfria, lava a alma.
Quando eu, moleca de 11,12 anos, tomava banho de chuva, meu pai me dava uma colher de sopa de licor de menta para eu não gripar. Assim, como se fosse remédio. E dizia que eu estava tomando licor de papagaio e a gente ria, enquanto minha mãe enxugava meu cabelo."

Quem diria... uma tia e uma amiga chuvosas! Ganhei meu dia!

22 de Outubro de 2001 - 12h16

"Gogosta,

Você sabia que desde pequena que adoro pegar chuva, do jeitinho que você escreveu no seu site?
Eu levava a sombrinha prô colégio e, se na hora da saída estivesse chuvendo eu deixava aquele instrumento horrível dentro da bolsa (até hoje não tenho sombrinha) e ia prá casa a pé, no meio da enxurrada... Feliz da vida! Quando eu chegava em casa, sua avó e a Maria (aquela mesma que tá lá até hoje) aprontavam um banzé danado e eu num tava nem aí... Ia para o quintal acabar de tomar chuva balançando e cantando na maior altura ("Minha filha! O que os vizinhos vão pensar?").
Quando estava em casa e começava a chover, eu simplesmente tirava o relógio e os sapatos e ia prô balanço e prá debaixo das goteiras dos beirais... E cantava, cantava e dava as maiores gargalhadas!
Um amigo meu dizia quando eu estava muito estressada ou triste: "Acho que você tá precisando tomar uma chuva!" Até hoje, quando bate uma chunova eu faço isso. Só que ao invés de cantar e balançar eu fico fazendo alongamentos...

Tô vendo que preciso tomar umas chuvas ...

Beijocas

Helena"

Que delícia de email que a minha tia acabou de me mandar! Agora eu estou começando a entender... Será que é de família essa minha vontade inexplicável de sair na chuva? Você conhece, Tchê, algum parente que saia na chuva antes de nós? Vamos pesquisar de onde veio este gene? Ou será que a gente gosta de sair na chuva porque a gente tem uma liberdade pulsando aqui dentro e nós sabemos disso? Será que é porque a chuva é bonita, e pronto?

Tchê, gogostíssima, quando cair chuva forte e for fim-de-semana, me espere pra gente tomar chuva juntas! Quem sabe neste dia nós iremos descobrir que gostamos da chuva simplesmente porque sim.

P.S.: É tão bom mesmo ter uma tia gogosta!!

21 de Outubro de 2001 - 14h40

"Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada."

(Clarice Lispector, em "Água Viva")

20 de Outubro de 2001 - 21h31

"Vento?
Só subindo no alto da árvore
que a gente pega ele pelo rabo..."

(Manoel de Barros)

Às vezes me dá uma vontade violenta de sair na chuva e ficar lá fora, sentindo cada pingo de nuvem e gostando deles. Me dá vontade de ficar molhada até os ossos, com a alma encharcada de chuva. Nem sei explicar porquê.

19 de Outubro de 2001 - 21h41

"Meu Vinícius de Moraes,
Não consigo te esquecer.
Quanto mais o tempo passa,
Mais me lembro de você.

Cadê o meu poetinha?
Cadê minha letra, cadê?
E morro neste piano
De saudade de você!"

(Tom Jobim)

Hoje o Vininha estaria fazendo 88 anos. Benção, poetinha.

19 de Outubro de 2001 - 14h33

Mais uma Sexta-feira sem aula de flauta. Faz tanto tempo que eu não tenho aulas com o Dado que ele se esqueceu que dá aula para mim. Se o Dido não fosse meu professor também, eu já teria esquecido tudo que eu sabia! Eu nem estou mais ligando mas a Françoise, coitadinha... É triste ver como ela está com saudade das aulas! Ela até adoeceu. As suas molinhas se deslocaram, num ato de protesto, eu acho. Eu precisei levá-la ao Robson, no Palácio das Artes, para que ele a medicasse. Agora está tudo bem. Mas ela só quer tocar Villa Lobos. Bachianas Brasileiras nº 5.

19 de Outubro de 2001 - 07h18

"O sool chegoou nem licençaa pediu
Me acordou coom um taapa de luuuz(...)"

(Amanhecer - Gilvan de Oliveira e Fernando Brant)

18 de Outubro de 2001 - 20h41

"O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar,
Sabe bem olhar p´ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P´ra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar..."

(Fernando Pessoa)

Em Outubro de 1999, *ele* perdeu uma aposta comigo. Perdeu a aposta mas ganhou o prêmio. Um livro com a seguinte dedicatória: "Este livro é para você não perder mais apostas comigo! Talvez ele demore algum tempo para chegar às suas mãos e se, neste dia, você nem se lembrar mais de que aposta foi essa, não tem problema não, eu explico." O livro está comigo até hoje.

18 de Outubro de 2001 - 12h26

Que coisa mais gostosa, ou melhor, "gogosta", que é ter uma tia coruja!

17 de Outubro de 2001 - 14h39

"(...) Tem escritores, tem poetas, que escrevem para dizer como as coisas são. Tem outros que escrevem para inventar como elas poderiam ser, se tudo fosse mais encantado e, por isso, mais verdadeiro.

Com esse amigo, Manoel de Barros, tenho aprendido a esperar flor florir, a olhar o mato e ver a festa, a conversar com lagartixa, a fazer peraltices com as palavras, a espiar vôo de passarinho até ver a cor do vento.

Um dia, quem sabe, eu aprendo... eu só não, nós todos, a carregar água na peneira, a me apaixonar por moça que não existe. (...)"

(Carlos Rodrigues Brandão)

17 de Outubro de 2001- 14h34

"(...) No caminho, antes, a gente precisava
de atravessar um rio inventado.
Na travessia o carro afundou
e os bois morreram afogados.
Eu não morri porque o rio era inventado.(...)"

(A Menina Avoada - Manoel de Barros)

16 de Outubro de 2001 - 21h56

E antes que a Cathy pergunte, eu já vou avisando: não, este blog não vai virar a homepage oficial do fã-clube do Flávio Henrique.

16 de Outubro de 2001 - 21h34

Hoje eu descobri um recado que a Tchê deixou dois dias atrás na secretária eletrônica do meu celular. Eu tinha emprestado o meu CD "Flávio Henrique e Marina Machado" para ela mas, ao chegar em casa e se lembrar que seu aparelho de som não estava funcionando, ela me ligou avisando que iria deixar o CD na portaria do prédio, assim era só eu passar na porta e pegá-lo de volta. Depois que o som ficasse pronto, funcionando direitinho, ela me pediria o CD emprestado novamente. O recado dela foi mais ou menos assim. Eu retornei a ligação e disse que ela poderia ficar com o CD enquanto o som estivesse no conserto. "Mas como você vai sobreviver sem o seu CD de estimação? O som só vai ficar pronto semana que vem e você não consegue ficar sem ele!" - ela me disse do outro lado da linha. "Você está certa - eu respondi - e é por isso que eu tenho um outro CD igual ao que está com você!" "Você tem dois CDs iguais?" "Tenho, uai. Você acha que eu iria te emprestar um e ficar sem? Lógico que não! Você mesma disse que eu não posso viver sem meu CD de estimação... Eu tenho um que eu não empresto nem se me olharem com a cara que a minha cachorrinha faz quando eu estou tomando sorvete e tenho outro, igualzinho, para poder emprestar e, assim, fazer com que mais pessoas conheçam o Flávio Henrique e gostem muito dele e queiram ir aos shows dele comigo!" "Você tem dois CDs iguais..." "Tenho. E se você quiser ouvir o CD do Dado Prates também, que é o CD mais lindo que existe, eu empresto." "Você tem dois... iguais..." "Um que eu não empresto nem se me ameaçarem de morte e outro que eu posso emprestar pra você ouvir e gostar muito e me acompanhar em todos os shows. Quer emprestado?" "Não, obrigada. Um de cada vez." "Então tá. Lembre-se de mim quando ouvir a música 6."

Eu quase que tenho um pouco de inveja de quem ainda não ouviu o segundo CD do Flávio Henrique. Depois que eu ouvi este CD, eu nunca mais ouvi metade dos meus CDs que antes eu achava que eram bonitos.

15 de Outubro de 2001 - 21h56

A frase do Quintana me fez lembrar uma parte do livro do Tom Schulman, "Dead Poets Society", que fala o seguinte:

"We don't read and write poetry because it's cute. We read and write poetry because we are members of the human race. And the human race is filled with passion. And medicine, law, business, engineering, these are noble pursuits and necessary to sustain life. But poetry, beauty, romance, love, these are what we stay alive for."

15 de Outubro de 2001 - 21h21

"(...) e a respeito do José em latim:

O belo é tão útil quanto o útil
Quintana"

Alguém ousa discordar da Telinha, que me mandou estas palavras por email?

15 de Outubro de 2001 - 13h43

"Cajueiro Pequenino", do Juvenal Galeno. Eu tinha oito anos quando, de repente, decorei esta poesia. De tanto ler a "historinha" do cajueiro que tinha parado de crescer por falta do amor de seu dono ausente, eu tinha aprendido a ler os versos com a Antologia fechada. Ainda me lembro da emoção da descoberta, da vontade louca de recitar o poeminha para meus pais. Eu tinha oito anos e tinha acabado de decorar meu primeiro poema "importante", de gente grande mesmo, que estava até naquele livro do meu pai.

Era preciso falar isso com eles num momento especial. Como o dia de ir para a fazenda. A fazenda era longe 56 kilômetros, a contar a partir do trevo de Goiânia. Mato, mato, mato... a mesma paisagem. Meus irmãos se cansaram de brigar e o carro ficou em silêncio. "Eu sei uma poesia", eu disse com a importância, a emoção e o medo de quem conta um segredo. Aquela novidade, no meio do nada daquele caminho, fez com que todos resolvessem prestar atenção no que eu iria falar. Eu estava tão nervosa que mal consegui recitar os primeiros versos:

"Cajueiro pequenino,
Carregadinho de flor,
À sombra das tuas folhas
Venho cantar meu amor,
Acompanhado somente
Da brisa pelo rumor,
Cajueiro pequenino,
Carregadinho de flor. (...)"

Mas continuei certinho, com a voz engasgada, até o final. Eu achava que esse era o poema mais lindo do mundo! Durante anos, esse poeminha foi meu companheiro enquanto eu esperava minha mãe me buscar na escola ou quando eu não tinha muito o que fazer.

E fui crescendo e decorando outros poemas e achando que eram eles os mais belos! De repente, de tanto lê-los, eles ficam meus amigos, eu acho. É assim que acontece. Por isso, ontem, quando meu irmão me perguntou se tinha alguma utilidade eu saber "José", do Drummond, em Latim, eu respondi que sim. "Mas você nunca vai poder recitá-lo pra ninguém, ninguém nunca vai entendê-lo, ninguém nunca vai ter paciência de escutar uma estrofe!" - foi a resposta dele, com a qual eu concordei completamente. "Então qual é a utilidade disso tudo?" "Ele me faz companhia" - eu respondi. Simples assim.

14 de Outubro de 2001 - 11h55

"Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira."

(Poesia - Carlos Drummond de Andrade)

13 de Outubro de 2001 - 13h58

"Deus, qui beatum regem Eduardum Confessorem tuum aeternitatis gloria coronasti fac nos, quaesumus; ita eum venerari in terris, ut cum eo regnare possimus in caelis. Per Dominum. (...)"

Carol, cadê você para nós comemorarmos juntas o Dia de Santo Eduardo?

12 de Outubro de 2001 - 17h54

"Há um meniino... há um moleeque...
Morando sempre no meu coração...
Toda vez que o adulto balança
Ele vem pra me dar a mãão...

Há um passaado... no meu preseente...
Um sol bem quente lá no meu quintal...
Toda vez que a bruxa me assombra
O menino me dá a mãão...

E me fala de coisas bonitas
Que eu acredito que não deixarão de existir...
Amizade, palavra, respeito,
Caráter, bondade, alegria e amooor...

Pois não posso, não devo, não quero
Viver como toda essa gente insiste em viver...
E não posso aceitar sossegado
Qualquer sacanagem ser coisa normaal...

Bola de meeia... bola de guude...
O solidário não quer solidão...
Toda vez que a tristeza me alcança
O menino me dá a mãão...

Há um meniino... há um moleeque...
Morando sempre no meu coração...
Toda vez que o adulto balança
Ele vem pra me dar a mãão..."

(Bola de Meia, Bola de Gude - Milton Nascimento / Fernando Brant)

12 de Outubro de 2001 - 02h45

Mas o motivo que me fez voltar pra casa correndo, furando todos os sinais vermelhos que estavam pelo caminho - quando a gente está muito feliz é difícil ficar parado! - foi saber que o Dado Prates e o Flávio Henrique voltaram a fazer músicas juntos e a fazer shows juntos e a compor juntos e a tocar juntos e eu sei que eu já estou repetindo tudo que eu falei mas eles estão trabalhando juntos novamente, para a minha total alegria, porque os dois juntos são realmente o máximo e foi por isso que eu voltei pra casa ouvindo "Caçada da Onça" muito muito muito alto e foi por isso que eu e a Cathy começamos a dançar a coreografia de "O Que é o Baião" dentro do carro e, pessoas, vocês entenderam a complexidade desta novidade? Daqui a pouco tem música nova do Dado e do Flávio Henrique e isso é melhor do que uma música do Chico e do Edu Lobo!

12 de Outubro de 2001 - 02h31

Quase dois meses sem ouvir nenhuma notinha ao vivo... Que flauta que a falta do Dado Prates já estava me fazendo!

11 de Outubro de 2001 - 14h17

Existe algo mais insensível, mais chato e mais egoísta do que um metrônomo?

10 de Outubro de 2001 - 12h13

Não sei se foi por causa deste céu nublado - na Europa o céu estava sempre nublado - mas de repente eu me lembrei do francês que tirou o chapéu para conversar comigo. Eu estava na "Place des Vosges", em frente à casa do Victor Hugo, e queria saber como chegar ao "Musée Picasso". "S´il vous plait..." eu disse a um jovem - não tinha mais de 40 anos - que parou e, ao me ouvir perguntar onde era o museu, tirou o chapéu para me dar as coordenadas. Ele me explicou tudo calmamente com seu chapéu na mão. Eu agradeci - "merci" - ele fez um movimento afirmativo com a cabeça, colocou o chapéu novamente e seguiu o seu caminho, enquanto eu ficava pensando que, então, cenas assim não aconteciam só naqueles filmes de época.

Talvez tenha sido este céu nublado que me fez lembrar disso. É culpa deste céu branco eu ter ficado, de repente, com uma saudadezinha de Paris.

09 de Outubro de 2001 - 12h53

"Um dia de chuva é bom para a gente comprar livros de poemas... Quem perguntar por que, de nada lhe adianta comprar um livro de poemas."

(Mário Quintana)

09 de Outubro de 2001 - 12h51

"Chuva está chovendo tanto..."

(Guimarães Rosa, em "Manuelzão e Miguilim" - "Campo Geral")

08 de Outubro de 2001 - 17h19

"Eu já aprendi de alguns jeitos bons e de outros jeitos tristes que, mesmo que nossos retratos feitos por Jean Pierre numa hora mágica em Paris desapareçam das mãos que nosso corpo tem, eles não vão sumir nunca do lugar que os originou: nossa alma."

A Stella - que tem um Quarto todo alegre! - me mandou este recadinho por email.

07 de Outubro de 2001 - 13h12

"Este puxa-puxa
tá com gosto de coco.
A senhora pôs coco, mãe?
- Que coco nada.
- Teve festa quando a senhora casou?
- Teve. Demais.
- O que que teve então?
- Nada não menina, casou e pronto.
- Só isso?
- Só e chega.
Uma vez fizemos piquenique,
ela fez bolas de carne
pra gente comer com pão.
Lembro a volta do rio
e nós na areia.
Era domingo,
ela estava sem fadiga
e me respondia com doçura.
Se for só isso o céu,
está perfeito."

(Mater Dolorosa - Adélia Prado)

06 de Outubro de 2001 - 22h48

Pater et filia

'Per amica silentia lunae'
dixit vox mei cordis:
Pater, ubi es?
Pater, ubi sum?
Et subito ipsa respondit:
Sum ibi ubi es
Ibidem.
Es hic ubi sum
Idem.
Ipso in loco sumus.
Uides lunam
Uideo lunam etiam.
Luna in caelo ipsa est.
Per omnia saecula saeculorum.

Faz tempo que eu não converso com meu pai... Me deu vontade de escrever aqui este poeminha, que eu fiz ano passado. Ele nem sabe da existência desta página, mas não tem problema. Eu quis escrever do mesmo jeito.

Para quem não souber Latim, aqui vai a tradução dos versinhos:

Pai e filha

'Sob o silêncio amigo da lua'
diz a voz do meu coração:
Pai, onde você está?
Pai, onde eu estou?
E de repente ela mesma responde:
Eu estou aí onde você está
No mesmo lugar.
Você está aqui onde eu estou
Da mesma maneira.
Estamos no mesmo local.
Você vê a lua
Eu vejo a lua também.
A lua no céu é a mesma.
Para sempre.

06 de Outubro de 2001 - 21h16

"(...) Quando a nooite aa lua maansaa
E aa gente dança venerando a nooiteee."

(Canção do Povo de um Lugar - Caetano Veloso)

06 de Outubro de 2001 - 19h50

Algumas belezas capturadas pela máquina fotográfica do meu irmão durante nossa viagem:

. o pé da Torre Eiffel.
. o Arco do Triunfo - tão lindo mesmo! - contra o céu.
. "A Paz de 1815", uma das quatro esculturas no Arco do Triunfo.
. as ruínas da "Gedächtniskirche", em Berlim. Quando as bombas dos Aliados em 1943 atingiram esta igreja, a estrutura manteve-se em pé. Não foi recontruída para que as perdas de guerra não fossem esquecidas. Ela forma uma dupla contrastante com esta moderna igreja de vidro ao seu lado.
. uma das ruas de Garmisch. Todas as ruas desta cidadezinha do sul da Alemanha são assim. Garmisch não parece uma cidade nem suas flores parecem de verdade. Lá é tudo tão certinho que mais parece um cenário. Não parece?
. Neuschwanstein, um castelo no Sul da Alemanha. Foi a inspiração de Walt Disney para desenhar o castelo da Bela Adormecida.
. e os Alpes.

Bonito, bonito, tudo isso.

06 de Outubro de 2001 - 18h05

"(...) Fim da taarde aa terra cooraa
E aa gente chora porque finda a taardeee(...)"

(Canto do Povo de um Lugar - Caetano Veloso)

06 de Outubro de 2001 - 16h58

"Mas horas há que marcam fundo...
Feitas em cada um de nós,
De eternidades de segundo,
Cuja saudade extingue a voz."

(Manuel Bandeira, em "A vida assim nos afeiçoa")

06 de Outubro de 2001 - 07h36

"Todo diiaa o sol levaantaa
E aa gente canta o sol de todo diiaaa(...)"

(Canto do Povo de um Lugar - Caetano Veloso)

05 de Outubro de 2001- 22h19

Eu estava querendo ir dormir para fazer esse dia chato acabar logo, mas eu ainda tinha que tirar xerox de uns exercícios para a minha aula amanhã. Foi só por isso que eu saí de casa, porque minha vontade mesmo era ficar no escuro, debaixo de um cobertor, pensando em tudo que deu errado hoje. Mas eu tinha que acabar de planejar minha aula. E fui até a faculdade.

Enquanto o rapazinho tirava xerox de diversos exercícios, eu pensava que hoje *ele* mal tinha conversado comigo, que meu professor tinha desmarcado minha aula de flauta e que eu não tinha recuperado o tubo que ficou em Berlim. Eu estava bem concentrada discutindo com os deuses o porquê do meu dia ter sido tão péssimo, quando de repente uma ex-aluna minha me chamou pelo nome. Ela tinha sido minha aluna dois anos atrás e eu nem me lembrava mais do nome dela. "Não tem problema, eu sou a Suzana", ela respondeu sorrindo e disse que estava com saudades da minha aula. Disse que foi muito bom encontrar comigo, me deu um abraço de supetão, e me perguntou quando eu seria sua professora novamente. Ela não imagina o bem que me faz ouvir uma pergunta deste tipo. Às vezes eu não entrego os exercícios corrigidos no prazo combinado, me esqueço de levar a música que algum aluno me pediu para traduzir, e eles continuam me tratando com um carinho que quase me deixa sem graça. Eles não tem a menor noção do quanto são importantes para mim. Meus alunos são meu fio-terra.

Ter encontrado com a Suzana me fez mudar de idéia e não ir direto para casa me enrolar nas cobertas. Como eu estava com fome, resolvi passar num Shopping e comprar um sanduíche no "Xodó". "Um cheeseburger e uma 'batata pequena'. Pra viagem." O menino do caixa me atendeu direitinho e, depois de uns dois minutos, me entregou o meu pedido num saco de papel fechado. Eu agradeci com pressa e fui para casa. Mas qual não foi a minha surpresa ao chegar no carro e me preparar para roubar uma batatinha: lá estava um sanduíche, uma 'batata pequena', como eu havia pedido, e mais um monte de batatas soltas pelo pacote. Muitas batatas mesmo! Eu nunca tinha visto tanta batata na minha vida! Meu sanduíche estava afogado em batatinhas. Esta cena me fez cair na gargalhada e pensar que a vida é algo divertido! Oras! O meu desenho ficou para trás mas um dia eu posso voltar em Paris e procurar o Jean Pierre! Hoje eu não tive aula de flauta mas vou ter semana que vem, e depois vou chegar em casa quase desistindo de ser flautista, como sempre acontece! Pra que tanto drama? Não quero gastar vida chateada, não!

05 de Outubro de 2001 - 19h18

De Paris, eu quis trazer apenas uma coisa para mim: o desenho feito pelo retratista de Montmartre. Eu não precisava de nenhuma outra lembrança da Cidade-Luz. Nada poderia ser mais especial que isso.

Montmartre é uma área de Paris, um pouco afastada do centro, que no final do século XIX foi o ponto de encontro dos artistas, escritores, poetas e seus discípulos. Sua "Place du Tertre", o ponto mais alto de Paris, foi freqüentada por Toulouse-Lautrec, Manet, Renoir, Salvador Dali, Picasso, Victor Hugo, Emile Zola, Apollinaire... Eu cheguei em Paris ansiosa para conhecer este lugar, que estava descrito no guia como sendo "uma colina bonita, com ar de cidade pequena, com ruas sinuosas, pequenos terraços, longas escadarias e o famoso vinhedo onde as poucas uvas são colhidas, em uma atmosfera de reverência, todo começo de outono."

Era preciso conhecer Montmartre. Convenci meu irmão a visitar o "Chatêau de Versailles" em uma outra viagem e subimos a colina. Conhecemos a "Place du Tertre" e seus vários pintores que fazem seus trabalhos à vista de todos. Dei moedas para um saxofonista e perguntei a um flautista se a flauta dele também tinha nome. Montmartre é um lugar alegre.

Eis que, de repente, alguém me pergunta se eu queria fazer o meu "portrait". "Non, merci". "Je suis inspiré", ele aconselhou. Eu olhei bem para o artista e perguntei se ele dizia para todos que estava inspirado. "Oui", foi a resposta. "Eu estou inspirado sempre." Eu achei graça do que ele disse e me dei conta de que eu estava em Montmartre, lugar que sempre foi sinônonimo de arte. "D´accord", eu resolvi acreditar nele. "Pode fazer o meu 'portrait'."

Enquanto ele me desenhava, eu conversava com ele e fazia caretas. Nem me passava pela cabeça que ele poderia me desenhar como ele me desenhou. Confesso que eu quase levei um susto quando olhei o desenho. "Esta sou eu?" "Estou certo que sim", ele sorriu. Eu não tenho a mínima idéia de como ele conseguiu desenhar minha alma. Ele me desenhou sem máscara alguma, como quando eu me visto de Pierrot no Carnaval. Eu fiquei muito, muito impressionada. Retrato nenhum com a máquina potente do meu irmão, cheia de lentes e de zoom, jamais me retratou melhor. O desenho do Jean Pierre me impressionou mais do que as obras de arte do Louvre. Até agora eu estou querendo descobrir como ele pôde ter tamanha sensibilidade para me desenhar daquele jeito.

Mas a viagem foi corrida e, numa das vezes que nós tivemos que "fechar-mala/descer-com-mala/pagar-hotel/carregar-mala/colocar-mala-no-taxi", em Berlim, um tubo branco ficou para trás. Um tubo com algumas reproduções do Picasso e do Van Gogh, escolhidas com tanto carinho; dois cartazes do filme "O Senhor dos Anéis", que eu trouxe para o Felipe e para o Pedro; algumas fotos grandonas, em preto e branco, de Paris; e dois desenhos: o "portrait" da minha mãe e o "portrait" da minha alma.

Imediatamente, assim que eu desci do taxi no aeroporto e reparei que tinha deixado o tubo para trás, liguei para o hotel. "Peça para o Antônio, do quarto 502, trazer o tubo para mim." Antônio é um amigo paulista que eu conheci lá. Mas o Antônio chegou de viagem e me falou por email que não ficou sabendo de tubo nenhum. Então hoje eu liguei pro hotel e eles também não sabiam mais de nenhum tubo. Nunca mais "portrait", nunca mais a única coisa que eu quis trazer de Paris.

Alguém me consola...

05 de Outubro de 2001- 11h01

"Minh´alma chove
frio, tristinho.
Não te comove
este versinho?"

(Drummond, em Lira Romantiquinha)

05 de Outubro de 2001 - 01h08

"Quando o sol... se escondeu...
Muito além do chão...
E a luz... viajou... carregando o azul...
O luar... me chegou...
Me acarinhou...
Estrelou... sobre o meu... quarto de dormir...
Sobre mim... meu sonhar... vagalumeou...
E eu ouvi... a canção... de adormecer..."

Por falar em cantiga de ninar... Gilvan de Oliveira e Fernando Brant.

04 de Outubro de 2001 - 23h34

E se eu estiver mesmo viciada neste mundo do computador? Ontem a Internet da minha casa ficou fora do ar ou algo parecido. Não pude escrever nada, não pude ler o que meus amigos estavam escrevendo. Eu fui dormir com a estranha sensação de que meu dia estava incompleto.

Eu acho que me afeiçoei a um grupinho de "amigos virtuais" que passaram a fazer parte do meu dia-a-dia como meus "amigos de carne e osso". Foi chato ir dormir sem as palavras que a Cláudia, a Débora, o João tinham deixado de presente para todos. Chato mesmo. Foi como uma criança ir pra cama sem ouvir uma canção de ninar.

02 de Outubro de 2001 - 20h48

Eu encontrei com a Nívea, minha próxima professora de Alemão, e fiquei sem graça de contar pra ela o fracasso que foram minhas tentativas de comunicação na Alemanha. Muitos alemães não sabem Inglês. Muitos mesmo. Por causa da guerra, talvez, só os mais jovens começaram a aprendê-lo. Os garçons do hotel não me entendiam, o fiscal que me pegou com um bilhete errado do metrô não compreendeu uma palavra do que eu queria explicar. Imagine você ser pego fazendo algo ilegal num país estranho e não ter como se defender. Isso foi mais ou menos o que aconteceu comigo. Em Berlim, você compra o bilhete numa máquina na estação e entra no metrô. Não precisa apresentá-lo para ninguém, só se o fiscal entrar no seu vagão e pedir o ticket. Isso aconteceu uma vez. Entrou um homem bigodudo gritando alguma coisa em Alemão e todos começaram a mostrar o papelzinho. Eu fiz o mesmo. Ele tinha uma cara de "tomara-que-alguém-esteja-sem-o-bilhete" mas eu tinha comprado um "7-Tage-Karte", que valia durante uma semana, e estava tranqüila. Ele foi chegando até mim, eu mostrei o bilhete e... ele fez uma cara de "aha! uma fora-da-lei!" e começou a falar coisas muito feias, porque foram faladas alto. "Ich spreche kein Deutsch", eu confessei que não sabia Alemão. "Sprechen Sie English?", eu perguntei já esperando uma resposta positiva. Mas ele não sabia Inglês e continuou falando comigo, ou melhor, falando sozinho em Alemão. E olhava para o ticket e falava cada vez mais bravo e eu sem entender o porquê. Até que ele me mandou sair do metrô e me mostrou que, além de comprar o ticket, eu deveria validá-lo em uma outra máquina. Ele falava como se tudo isso fosse muito lógico. Seria lógico se eu soubesse ler o que estava escrito no bilhete, mas tudo em Berlim é em Alemão. É raro ler alguma coisinha em Inglês e quando isso acontece, é dentro de algum museu. Eu, que sou viciada em palavras, já estava ficando estressada de não conseguir ter nem idéia do que estava escrito nas placas das ruas ou nas propagandas das estações.

Hoje em dia, eu estou andando com o bilhete do metrô na carteira. É para eu me lembrar de estudar Alemão direitinho. Um dia eu ainda volto em Berlim só pra ler tudo que eu não consegui ler nesta viagem.

01 de Outubro de 2001 - 21h14

As fotos da viagem vão ficar prontas na Quarta-feira. É preciso colocar aqui alguma foto de Paris. Aquela cidade foi feita para ser fotografada. Eu, que gosto de estar na frente de uma máquina fotográfica, fiquei quase inibida de aparecer em fotos em Paris. Era como se eu estivesse tapando parte de uma "top model" poderosíssima. Eu quase ficava sem graça toda vez que meu irmão tirava alguma foto com o foco em mim. Paris deve estar focalizada sempre. Ela é bonita e sabe disso. Chega quase a ser metida. Mas nem por isso perde seu brilho, porque ela pode.

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