Explicando o inexplicável
Carinho: Presente enviado pelo coração cujo portador pode ser mão, boca, gesto ou palavra.
by Adriana Falcão
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"Amor é um gostar que não diminui de um aniversário para o outro. Não. Amor é um exagero... Também não. É um desadoro... Uma batelada? Um enxame, um dilúvio, um mundaréu, uma insanidade, um destempero, um despropósito, um descontrole, uma necessidade, um desapego? Talvez porque não tivesse sentido, talvez porque não houvesse explicação, esse negócio de amor ela não sabia explicar, a menina."
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Essa menina sou eu, Juliana. Essas palavras sou eu, menina.
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Só para não dizer que não falei das flores...
Eu não amo quem não me ama!
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Não digo quem é, mas tem gente que ODEIAALGUÉM QUEEUTAMBÉM NÃOPOSSODIZERQUEMÉ. Tá bom assim? E eu ainda não descobri quem eu vou odiar além do ORIGAMI. É que tem que ser alguém que canta.
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POEMINHA SURREALISTA Millôr Fernandes
Gostaria, querida,
De ser inesperado
Como uma madrugada amanhecendo
À noite
E engraçado, também,
Como um pato num trem.
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Pra não deixar ninguém esquecer! Se não gostar de ler, como vai gostar de escrever? Ou escreva então para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente. Depois vomite. Pra mim, e isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar um dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta. Caio Fernando Abreu, na última carta de "Cartas".
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Acho que vou aproveitar esses espaço para começar a fazer listas das ou dos cinco mais, ou seja, lista das cinco mais melhores de boas das coisas de cada categoria.
Por exemplo, esta semana eu posso fazer a lista das cinco coisas que me fazem fazer o bem sem olhar a quem:
1.Poder ajudar;
2.Ver olhos brilhando;
3.Doar (meu tempo, minha vontade e o que mais eu puder);
4.Ensinar;
5.Crescimento pessoal (de todas as partes).
Todo mundo merece!
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E quando eu morrer, já escolhi meu epitáfio: Vocês todos vivendo, seus filhos da puta. Só eu não. Segunda alternativa: Fui, porém contrariada. __________
Cantinho do Leminski
que tudo passe
passe a noite
passe a peste
passe o verão
passe o inverno
passe a guerra
e passe a paz
passe o que nasce
passe o que nem
passe o que faz
passe o que faz-se
que tudo passe
e passe muito bem
incenso fosse música isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além
coração
Quem nasce com coração?
Coração tem que ser feito.
Já tenho uma porção
Me infernando o peito.
Com isso ninguém nasça.
Coração é coisa rara,
Coisa que a gente acha
E é melhor encher a cara.
epitáfio para o corpo
Aqui jaz um grande poeta.
Nada deixou escrito.
Este silêncio, acredito,
são suas obras completas.
epitáfio para a alma
aqui jaz um artista
mestre em desastres
viver
com a intensidade da arte
levou-o ao infarte
deus tenha pena
dos seus disfarces
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"Na vida do homem, o amor é uma coisa à parte, na da mulher, é toda a vida." Lord Byron
Árvore genealógica
Estava pensando aqui: o blog da Barbara é pai do meu, o da Cathy é avô, o do Cláudio, o da Ana, o das Amigas, a página do Cláudio e o fotolog do Guto são filhos. Minha família está diminuindo!
08:29 Há um ano aconteceria, mais tarde, um primeiro beijo. Que viria a acarretar em conseqüências, pela primeira vez, muito mais sérias. E tudo isso aconteceria por causa de um primeiro olhar, há mais de seis anos, e construiria algo que, desconsiderando as adversidades do tempo, da vida e de minha estapafurdia personalidade, completaria um ano.
Soneto do amor como um rio Vinicius de Moraes
Este infinito amor que um ano faz
Que é maior do que o tempo e do que tudo
Este amor que é real, e que, contudo,
Eu já não cria que existisse mais.
Este amor que surgiu insuspeitado
E que dentro do drama fez-se em paz
Este amor que é o tumulo onde jaz
Meu corpo para sempre sepultado.
Este amor meu é como um rio; um rio
Noturno, interminável e tardio
A deslizar macio pelo ermo
E que em seu curso sideral me leva
Iluminado de paixão na treva
Para o espaço sem fim de um mar sem termo.
Assim como alguns sonhos se transformam em realidade, algumas brincadeiras passam a ser coisa séria. Muitas vezes a gente acha que sente, algumas poucas a gente sente de verdade.
10:28 Mamãe chega do cabeleireiro, mal me encontra no meio da porta e diz: Ju, você viu a Caras desta semana? Eu comecei a rir, foi algo impulsivo e compulsivo. Você é preconceituosa demais, devia ter lido (Ainda não sei o que existe para ser lido lá além das legendas. Semiótica. Soou para mim como um: Eureka! Durante todo esse tempo as pessoas estão ali devorando textos não verbais, não é fantástico?). Aquele escritor que você adora, que você não pára de falar nele, tava lá. Quem?!? Affonso Romano de Sant'Anna? Não... aquele outro. Não resisti, ri outra vez e perguntei: o Mário Quintana? Não, um de nome estranho. E ela agora estava mais séria. Eu, já com a maior cara de espanto: Diogo Mainardi? Parece, mas é ainda mais esquisito. Aquele, Juliana - o uso do meu nome inteiro significa que a sua paciência caminha para o fim -, que você foi "conversar" com ele outro dia. Ah, o Moacyr Scliar? Esse mesmo. Tava lá, numa festa da Academia Brasileira de Letras. É mãe? Ele é um cara muito bacana, o último livro dele, Saturno nos Trópicos, é interessantíssimo. O que você achou, mãe? Dele? É... a mulher dele é muito bonita, né? Por alguns instantes eu quase me esqueci de que ela havia lido Caras.
Acho que estou mesmo muito Cult porque como minha Primeira Leitura eu ainda sou muito mais a Bundas, Caros Amigos. Bravo!
Ah, minha mãe, minha mãe...
Ah, minha mãe, minha mãe...
Ah, minha mãe, minha mãe...
É a mulher do meu pai! Sabedoria popular by Facão
22:32 Ainda sobre o assunto do dia: sim, continuei pensando em Rachel de Queiroz e cheguei à conclusão de que eu nunca gostei dos seus romances. Não estou desmerecendo seus escritos, sua literatura, estou dizendo o que foram para mim. O Quinze me desceu demorado, como algo que não se quer acabar não para prolongar o prazer, mas porque não se quer mesmo continuar: remédio. Coisas de cânones de professoras chatas mal-amadas e mal-comidas de Português, era assim que eu as chamava. Dá vontade de parar de brincar antes da brincadeira acabar, ou apenas fechar os olhos e do começo fazer um final. Não interessa como vai acabar. Não se quer saber... e mais nada. Mas suas crônicas, ah... as crônicas. Raquel de Queiroz era isso: crônica, crítica, lúcida. Com 92 anos dominava o presente e o pasado de forma encantadora. Instantânea. Perspicaz, politizada, consciente e preocupada, com ela, com o país, conosco. Louvável ter sido a primeira mulher na Academia Brasileira de Letras, em 1977, (aliás, temos cada vez mais cadeiras vagas e cada vez menos quem as mereça candidatando), quebrando tabus e dando tapas na cara de toda uma sociedade ainda literariamente machista. Ironicamente, só entrou para a Academia Cearense de Letras anos depois, vinte. Seus romances talvez tenham ficado melhores na tela da Globo (Memorial de Maria Moura) ou do cinema (As Três Marias), mas o seu dia-a-dia foi, esse sim, muito bem imortalizado em suas palavras, inclusive em seu livro de memórias, Tantos Anos. E alguém por acaso sabia que ela era prima do José de Alencar? E que ela tomou posse na Academia Brasileira de Letras no exato dia em que morreu, 4 de novembro de 1977? Cruzes, isso dá azar.
"Na verdade, eu não gosto de escrever e se eu morrer agora, não vão encontrar nada inédito na minha casa".
12:31 Morreu, nesta madrugada, Rachel de Queiroz. Morreu como queria eu morrer: dormindo. Quem morre dormindo não morre, continua dormindo ou, como dizia Guimarães Rosa, fica encantado. Ela deve estar escrevendo sua próxima crônica agora, e apertando a mão do poeta maior, Drummond, ou do "poetinha" Vinícius, quem há de saber?
22:50 A segunda-feira depois do Dia de Finados parece sempre mais viva. Tudo bem, me contaram antes, mas eu vi depois, com estes olhos que a terra não há de comer se lembrarem de me cremar!
BLOG: O dedo do Quevedo
Imagine um sujeito vesgo, com tiques nervosos, com voz de capiau-da-serra e com um nariz torto. Esse é o galã das novelas brasileiras e que brevemente pegará a Malu Mader. Mais incompreensível o fato de ele já ter visitado o jardim das margaridas de Luana Piovanni e Ana Paula Arósio. Quevedo http://quevedo.blogspot.com/
Tá lá, na coluna do Gravatá. Hoje, no jornal O Globo.
13:13 Eu não tenho medo de sinais, ou acharia que esta hora era um deles. Aliás, aprendi com minha avó que nós somos espelho e refletimos aos outros aquilo que eles projetam em nós. Somos maus ou bons dependendo de quem nos vê e da imagem que pretendem ver no objeto no qual nos transformamos naquele momento de observação. Coisa ruim não pega em mim, grande sabedoria digna dos noventa e tantos e lá se vão anos da minha querida (mas nada doce) Vó Cemica. Entretanto o assunto não é esse, lembrou-me um leitor que ontem era Dia do Livro, leitor que eu quero que saiba que eu não tenho medo de cartas. Palavras às vezes me assustam, mas não me metem medo. E minha letra de professora ainda sai por aí rodando o mundo, que o digam meus novos, velhos e bons amigos. Lembrei-me, eu mesma, do primeiro livro que me fez chorar. Fazendo-me chorar me fez ver do que um livro é capaz, ou do que somos nós capazes através dele. Uma palavra, sozinha, faz, sim, verão. Faz outono, inverno e primavera. E daí também lá se vão anos desde a primeira vez em que li Olhai os lírios do campo, do Érico Veríssimo. Diferente do que me disse uma vez uma aluna em uma prova: não, não é o pai do Luis Fernando Veríssimo. Mas a facilidade que um tem de levar-me às gargalhadas, teve o outro de me levar ao pranto, tarefa muito mais árdua e engenhosa. É preciso sentir o que se lê para chorar lendo, mas basta um jogo inteligente (ou besta) de palavras para que nos encontremos rindo. Eu, com meu riso frouxo então, nem preciso de tanto: tão muito ou tão pouco. Rir e chorar. Livros. Minha homenagem ao livro que li em 1991 e, sem que eu saiba até hoje, pode ter mudado toda a minha vida. Feliz Dia do livro! Dia de todo dia.
Olhai os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam; E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer um deles. Pois se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pouca fé?(Mateus. 6:28-30)
Cristo não fez tratados de economia e nem estava preocupado com coisas materiais: "Olhai os lírios do campo...". Ele veio anunciar o Reino de Deus, no Além. Aqui, no tempo de vida, temos que nos virar da melhor forma,procurando as virtudes e usando a razão. E usar a razão e buscar as virtudes é recusar todas as formas de materialismo, especialmente aquelas que querem se substituir à verdade redentora, uma blasfêmia inominável diante de Deus.
Os dois Lázaros, por José Nivaldo Cordeiro
00:00 De qualquer forma, sempre há um silêncio, fora ou dentro da gente. Silêncio bom ou ruim. Silêncio doce, gostoso e confortável de amizade. Silêncio quente, ácido e envolvente, selado por um beijo no amor. Silêncio frio, seco, engasgado, com gosto de lágrima e com cheiro eterno de morte.
Silêncios Mário Quintana
Há um silêncio de antes de abrir-se um telegrama urgente
Há um silêncio de um primeiro olhar de desejo
Há um silêncio trêmulo das teias ao apanhar uma mosca
...e o silêncio de uma lápide que ninguém lê.
E no silêncio da noite, eu escrevendo escondida das minhas próprias palavras.
09:15"A arte de uma sociedade livre consiste: primeiro em manter um código simbólico; depois em não temer a revisão... As sociedades que não podem combinar a reverência aos seus símbolos com a liberdade de revisão hão de deteriorar-0se no final." A.N. Whitehead
Epígrafe do livro Desconstruir Duchamp, do Affonso Romano de Sant'Anna. Sempre e cada vez melhor.
Até que ponto vivemos em uma sociedade livre? Seu espaço vai até onde começa o espaço do outro, isso é liberdade? "Liberdade, essa palavra / que o sonho humano alimenta / que não há ninguém que explique / e ninguém que não entenda" Cecília Meireles
22:06 Nem eu sabia que eu gostava tanto do Moacyr Scliar. Nem eu sabia que era Scliar e não Siliar. Nem eu sabia que de repente eu não sou parente do Vinicius de Moraes mas posso o vir a ser do Fernando Morais. Nem eu sabia que minha aula de Comunicação Empresaral de hoje havia sido trocada com o professor de Marketing 2. Aliás, tem tanta coisa que eu não sabia, e o pior de tudo é que ainda há tantas outras que eu continuo a não saber.
Apenas uma lembrança sobre a disputa entre Marco Maciel e Fernando Morais pela cadeira que pertenceu ao Roberto Marinho e ao Otto Lara Resende na Academia Brasileira de Letras:
Art. 2º - Só podem ser membros efetivos da Academia os brasileiros que tenham, em qualquer dos gêneros de literatura, publicado obras de reconhecido mérito ou, fora desses gêneros, livro de valor literário. As mesmas condições, menos a de nacionalidade, exigem-se para os membros correspondentes.
Estatuto da Academia Brasileira de Letras.
"A Academia, trabalhando pelo conhecimento [...], buscará ser, com o tempo, a guarda da nossa língua. Caber-lhe-á então defendê-la daquilo que não venha das fontes legítimas, - o povo e os escritores, - não confundindo a moda, que perece, com o moderno, que vivifica. Guardar não é impor; nenhum de vós tem para si que a Academia decrete fórmulas. E depois, para guardar uma língua, é preciso que ela se guarde também a si mesma, e o melhor dos processos é ainda a composição e a conservação de obras clássicas." Machado de Assis. Academia Brasileira de Letras, 7 de dezembro de 1897.
07:22 O Conto de Réis resolveu brincar de De volta para o passado. O fato é que eu nunca havia tido problemas com o pitas, mas há três semanas não tenho tido outra coisa. Estou de malas prontas, daqui a pouco eu me mudo... como na vida: é tudo uma questão de tempo. O fato é que nos dias que se perderam estavam as notícias da minha nova cam, do meu Fotoblog a da menção honrosa que ganhou meu mini-conto no concurso Haroldo Maranhão. Pelo menos por enquanto a vida, aqui, continua.
He andado muchos caminos,
He abierto muchas veredas;
He navegado en cien mares
Y atracado en cien riberas. Antonio Machado, poeta Sevilhano
A história se faz a cada dia, passo a passo. Depois de alguns quilômetros, ou muitos, ela é contada. Espaço e tempo se fundem no painel da memória. Então o futuro passa a ter perspectiva e sentido. E nós, responsabilidades. Nitis Jacon
20:25 Hoje, andando pela rua, me peguei a rir sozinha, como aliás tantas vezes faço. Tão comum já se tornou o fato que eu nem mais me lembro da causa de tanta graça. Quando dei por mim e vi o que estava acontecendo soltei um: Tô parecendo uma doida. E depois pensei: Devo estar parecendo mais doida ainda falando isso, sozinha, nessa altura. Ui! Deve ser culpa da estréia do Diogo Mainardi no Manhattan Connection de ontem. Decidido: a culpa é toda dele.
16:32 A partir de hoje, ali ao lado, do lado esquerdo do meu blog, dentro do coração, você vai encontrar uma nova seção: Explicando o Inexplicável, by Adriana Falcão. São trechos retirados do seu novo livro: Pequeno dicionário de palavras ao vento. Deliciosamente imperdível como a própria infância. Hoje, na estréia, o amanhã.
Amanhã: Dia de realizar os sonhos pendentes.
09:19 Ontem eu mandei um monte de carinho pelo correio: Niterói, São Paulo, Curitiba, São Thomé das Letras e até Greensboro. Espero que carinhos andem mais rápido do que as cartas normais, mesmo quando não vão de sedex.
12:30 Se eu considerasse todo o tempo que passo no sebo do Amadeu devorando livros, poderia me considerar praticamente uma traça.
Bom, balanço: 10 kg a menos, cabelos escuros, mais curtos e lisos, auto-escola, muito trabalho, há mais de três meses sem fumar, cinema e literatura em dia, excesso de convites, propostas indecentes e uma boa bagagem de elogios. Saldo?!? Algumas pessoas são um mal necessário. Já o mal de outras é só nos fazer bem.
Outro dia pensei nas pessoas que me envolvem, muito além de meus alunos. E isso me saiu bem assim:
Eu duvidei de um ser humano até que um dia a improbabilidade me fez duvidar de mim. Aprendi que jamais devo questionar a capacidade de um homem, porque nem assim saberei até que ponto ele pode chegar. Antes de questionar coloco eu mesmo uma reticência no final da frase... ou um ponto final.
Um pouco mais de sol... e eu era brasa Um pouco mais de azul... e eu era além Mário de Sá Carneiro
Por que Conto de Réis?
Um belo dia, há quatro anos, eu fui conhecer uma cidade, uma bela cidade, que se chama Tiradentes. Lá eu me encontrei. Encontrei o meu lugar. Mas não é qualquer lugar, é o lugar: Conto de Réis. Além de quê, quanto você acha que valem os meus contos de réis?
Eu recomendo! A hora da estrela de Clarice Lispector; Amadora de Ana Ferreira; Afrodite de Isabel Allende; Clube dos anjos de Veríssimo; Nome falso de Roberto Piglia; Os 100 melhores contos de crime e mistério e de humor da literatura universal organização de Flávio Moreira da Costa.
Entre os livros da minha biblioteca (estou vendo-os)
Há algum que já nunca abrirei.
Limites, Jorge Luis Borges
PARA UMA MENINA COMO UMA FLOR by poetinha
Porque você é uma menina como uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, que aliás você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado. E porque você é uma menina como uma flor e chorou na estação de Roma porque nossas malas seguiram sozinhas para Paris e você ficou morrendo de pena delas partindo assim no meio de todas aquelas malas estrangeiras. E porque você quando sonha que eu estou passando você para trás, transfere sua d.d.c. para o meu cotidiano e implica comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de você ser assim tão subliminar. E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre num nicho, mesmo quando põe o cabelo pra cima, como uma santa moderna, e anda lento, a fala em 33 rotações mas sem ficar chata. E porque você é uma menina como uma flor, eu lhe predigo muitos anos de felicidade, pelo menos até eu ficar velho: mas só quando eu der aquela paradinha marota para olhar para trás, aí você pode se mandar, eu compreendo. E porque você é uma menina como uma flor e tem um andar de pajem medieval; e porque você quando canta nem um mosquito ouve a sua voz, e você desafina lindo e logo conserta, e às vezes acorda no meio da noite e fica cantando feito uma maluca. E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e fala mal de mim para ele, e ele escuta mas não concorda porque é muito meu chapa, e quando você se sente perdida e sozinha no mundo você se deita agarrada com ele e chora feito uma boba fazendo um bico deste tamanho. E porque você é uma menina que não pisca nunca e seus olhos foram feitos no primeiro dia da Criação, e você é capaz de ficar me olhando horas. E porque você é uma menina que tem medo de ver a Cara-na-Vidraça, e quando eu olho você muito tempo você fica nervosa até eu dizer que estou brincando. E porque você é uma menina como uma flor e cativou meu coração e adora purê de batata, eu lhe peço que me sagre seu Constante e Fiel Cavalheiro. E sendo você uma menina como uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena; é um vazio tão grande que as outras mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê. E porque você é a única menina como uma flor que eu conheço, eu escrevi uma canção tão bonita para você, “Minha namorada”, a fim de que, quando eu morrer, você se por acao não morrer também, fique deitadinha abraçada com Nounouse, cantando sem voz aquele pedaço em que eu digo que você tem de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois. E já que você é uma menina como uma flor e eu estou vendo você subir agora – tão purtinha entre as marias-sem-vergonha – a ladeira que traz ao nosso chalé, aqui nestas montanhas recortadas pela mão presciente de Guignard; e o meu coração, como quando você me disse que me amava, põe-se a bater cada vez mais depressa. E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato a nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos – eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei, como tristes estátua ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão, de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfeitando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações – porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina como uma flor.
Sempre acreditei que fosse uma menina como uma flor e não uma menina com uma flor, por isso, e pela beleza dessa imagem, mantive aqui a minha contribuição.