Explicando o inexplicável
Bajulação: Frase com elogio demais que antecede outra, que vai pedir alguma coisa em troca.
by Adriana Falcão
__________
"Amor é um gostar que não diminui de um aniversário para o outro. Não. Amor é um exagero... Também não. É um desadoro... Uma batelada? Um enxame, um dilúvio, um mundaréu, uma insanidade, um destempero, um despropósito, um descontrole, uma necessidade, um desapego? Talvez porque não tivesse sentido, talvez porque não houvesse explicação, esse negócio de amor ela não sabia explicar, a menina."
__________
Essa menina sou eu, Juliana. Essas palavras sou eu, menina.
__________
Só para não dizer que não falei das flores...
Eu não amo quem não me ama!
__________
Não digo quem é, mas tem gente que ODEIAALGUÉM QUEEUTAMBÉM NÃOPOSSODIZERQUEMÉ. Tá bom assim? E eu ainda não descobri quem eu vou odiar além do ORIGAMI. É que tem que ser alguém que canta.
__________
POEMINHA SURREALISTA Millôr Fernandes
Gostaria, querida,
De ser inesperado
Como uma madrugada amanhecendo
À noite
E engraçado, também,
Como um pato num trem.
__________
Pra não deixar ninguém esquecer! Se não gostar de ler, como vai gostar de escrever? Ou escreva então para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente. Depois vomite. Pra mim, e isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar um dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta. Caio Fernando Abreu, na última carta de "Cartas".
__________
Acho que vou aproveitar esses espaço para começar a fazer listas das ou dos cinco mais, ou seja, lista das cinco mais melhores de boas das coisas de cada categoria.
Por exemplo, esta semana eu posso fazer a lista das cinco coisas que me fazem fazer o bem sem olhar a quem:
1.Poder ajudar;
2.Ver olhos brilhando;
3.Doar (meu tempo, minha vontade e o que mais eu puder);
4.Ensinar;
5.Crescimento pessoal (de todas as partes).
Todo mundo merece!
__________
E quando eu morrer, já escolhi meu epitáfio: Vocês todos vivendo, seus filhos da puta. Só eu não. Segunda alternativa: Fui, porém contrariada. __________
Cantinho do Leminski
que tudo passe
passe a noite
passe a peste
passe o verão
passe o inverno
passe a guerra
e passe a paz
passe o que nasce
passe o que nem
passe o que faz
passe o que faz-se
que tudo passe
e passe muito bem
incenso fosse música isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além
coração
Quem nasce com coração?
Coração tem que ser feito.
Já tenho uma porção
Me infernando o peito.
Com isso ninguém nasça.
Coração é coisa rara,
Coisa que a gente acha
E é melhor encher a cara.
epitáfio para o corpo
Aqui jaz um grande poeta.
Nada deixou escrito.
Este silêncio, acredito,
são suas obras completas.
epitáfio para a alma
aqui jaz um artista
mestre em desastres
viver
com a intensidade da arte
levou-o ao infarte
deus tenha pena
dos seus disfarces
__________
"Na vida do homem, o amor é uma coisa à parte, na da mulher, é toda a vida." Lord Byron
Árvore genealógica
Estava pensando aqui: o blog da Barbara é pai do meu, o da Cathy é avô, o do Cláudio, o da Ana, o das Amigas, a página do Cláudio e o fotolog do Guto são filhos. Minha família está diminuindo!
08:31 Cansada. Sim, é bem assim que estou. Não, não consigo pensar muito além disso.
Um longo dia
Foi um desses dias longos, que teimam em não acabar. Eles ficam esperando uma boa notícia qualquer, dessas bobinhas, coisas pequeninas que movem as montanhas dentro da gente, e se recusam em simplesmente terminar; assim, desse jeito, meio no ar. Querem a boa noticia, que a gente invente ou fabrique, compre em algum lugar. Mas que diga ao dia: ei, essa é a boa noticia, e você já pode acabar. Enquanto isso ele espera. As vezes duram semanas. Um dia que dura semanas. Ou até mais.
Nada demais. Eu acho. É que às vezes as coisas de um modo geral vão mal. E você faz um esforço pessoal de superar tudo isso. Porque você é mais que essas coisas. Maior que elas. E no fim das contas, precisa ganhar. Mas de repente, pequenas pedras vão rolando, e você fica pressentindo o desmoranamento que de repente nem vem. São só aquelas pedrinhas mesmo, rolando montanha abaixo, a mesma montanha que você quer morrer.
Só pedrinhas. O suficiente para um dia não querer acabar. É o banco que liga para lembrar que você está devendo (jura? Mesmo? sério? Puxa... e eu que achei que era o banco que me devia...!), o moleque que fica em recuperação, o outro que se estressou com o colega e a mãe louca do colega que se meteu e você não consegue tirar da cabeça a vontade de dar meia duzia de esbregues na tal da dona, é uma sensação difusa de que algumas pessoas precisam urgentemente crescer, é um mail pvt que vai para a lista e você sabe que o stress vai ser grande e completamente descartável, é a caçula que faz xixi na sua cama, no lençol limpinho, por 5 minutos entre o tempo que você pensou em leva-la ao banheiro e a hora que você tomou coragem de levantar e ir fazer isso... Pedrinhas.
Mas elas ficam ali, caindo, impedindo o dia de acabar. Me deu uma vontade louca de mandar um email desaforado para uma dessas pessoas que parecem amar colocar lenha na fogueira, e eu sabia que nào ia ser legal. Não ia porque eu ia acabar extrapolando, e falando um bando de coisas que a gente pensa, mas a educação que mamãe nos deu nos faz achar que são coisas que se não vão ajudar, é melhor guardar para gente. E no fim do mail eu ia estar culpando o tal (que bem merecia um mail desaforado, diga-se de passagem) pela recuperaçào, o xixi, o banco, tudo mais. E no fim das contas, as pedras não iam parar de cair.
Ai resolvi escrever aqui. Para não mandar o mail. Para aproveitar e dizer que o blog é moribundo mas ainda não morreu, para dar um alô para quem de fato vale a pena, e eventualmente para quem não vale também... E ai voltar para o chato trabalho de comparar estatísticas da rede pro relatório mensal, tentando pensar em qualque coisa, menos nas pedrinhas caem montanha a baixo.
Existe uma louca teoria de que se eu não ouço uma árvore que cai na floresta amazonica, ela de fato não caiu. Vai ver, se eu não pensar no banco, na recuperação, na mãe louca do coleguinha, no email, no sujeito que se aproveita do email (sintomático, eu diria...), no xixi, na falta de grana, na falta de emprego, na saúde dos pais, na crise mundial, na fome da etiópia ou qualquer coisa assim, essas coisas simplesmente deixam de ter acontecido... Wherever... Eu sempre faço algo parecido com isso mesmo...
E de mais a mais, pode demorar, mas os dias sempre acabam.
Texto da Adriana.
06:00 O ano tem doze meses. Novembro tem quinze dias. Os dias de dezembro, doze horas. Acabo morrendo em um final de ano qualquer. Causa mortis: falência múltipla do tempo.
Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós,
Tenho que apagar a luz,
Tenho que calar a voz,
Tenho que encontrar a paz,
Tenho que folgar os nós
Dos sapatos, da gravata,
Dos desejos, dos receios,
Tenho que esquecer a data,
Tenho que perder a conta,
Tenho que ter mãos vazias,
Ter a alma e o corpo nus.
Se eu quiser falar com Deus
Tenho que aceitar a dor,
Tenho que comer o pão
Que o diabo amassou.
Tenho que virar um cão,
Tenho que lamber o chão
Dos palácios, dos castelos
Suntuosos do meu sonho,
Tenho que me ver tristonho,
Tenho que me achar medonho
E apesar de um mal tamanho
Alegrar meu coração.
Se eu quiser falar com Deus
Tenho que me aventurar,
Tenho que subir aos céus
Sem cordas pra segurar,
Tenho que dizer adeus,
Dar as costas, caminhar
Decidido, pela estrada
Que ao findar vai dar em nada,
Nada, nada, nada, nada,
Nada, nada, nada, nada,
Nada, nada, nada, nada
Do que eu pensava encontrar.
(...)
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração. Poema de Sete Faces Carlos Drummond de Andrade
17:11 A morte sempre me assustou, ainda mais quando chega perto de nós a passos largos. Valeu, Ronaldo, pelo tempo de convivência, pelos incontáveis sorrisos e pelos eternos momentos de felicidade. Que bom que você existiu, que privilégio que a sua existência tenha se cruzado com a minha um dia, no segundo ano do ensino médio do Colégio Pitágoras.
Eu me recuso a colocar algo triste em sua homenagem:
Amigo e Companheiro Teddy Juaren e Tulio de Rose
Amigo
Companheiro de colégio
Hoje eu canto de alegria
Por de novo te encontrar
Nas férias, eu brincava todo dia
Mas no fundo o que eu queria
Era mesmo estar aqui
Uma pipa no céu todo azul
É tão linda de se ver
E brincar de boneca pra mim
Fez meu tempo não correr
Mas a escola é a luz
Que ilumina o caminho da gente
E é por isso amiguinho
Que hoje eu estou tão contente
Toda volta pra escola é assim
Tanta história pra contar
Todo mundo querendo se ver
Todo mundo querendo falar
A escola é a luz
Que ilumina o caminho da gente
E é por isso amiguinha
Que hoje eu estou tão contente
07:50 Mais um dia de chuva por aqui, pelo menos também é mais um dia de cinema. Por vezes pareço criança ansiosa pela matinê: toda quinta é dia de cinema. Toda quinta é dia de namorar... depois de dar 8 aulas initerruptamente. Não reclamo, só agradeço, pelos dois (três). Até tenho, mesmo, aquela felicidade um pouco clandestina da espera que, acho, me vem da Clarice.
Da série (que vocês já sabem: não tem início, nem meio, nem fim) Tem dias em que só a Anna Barbara me faz sorrir.
Era sexta-feira à noite. Estávamos, o Fred e eu, na casa da Cris, namorada de um amigo nosso, tomando amarula, cerveja, jogando War e esperando o jantar quando tocou o meu telefone. Aliás, ainda não fazíamos nada disso, tínhamos acabado de chegar e estávamos prestes a começar a preparação do jantar. O fato é que era a Anna Barbara (minha doce amiga que é uma fantástica professora de latim da Federal) me ligou, e todas as vezes que ela me liga me sinto invadida por uma felicidade tão encantadora quanto ela. Certa feita ela me deixou um recado na minha secretária eletrônica que dizia: "Juju, estou olhando para os pés de jabuticaba carregados aqui no quintal de minha casa e me lembrei de que ano passado estávamos comendo jabuticabas uma hora dessas e conversando sobre o professor Juarez, de Literatura Portuguesa, e seus netinhos, então pensei que se você não vier logo as jabuticabas vão se acabar... e isso seria uma coisa tão triste!" Desta vez eu atendi e ela me disse surpresa: "Oh, não! Você atendeu?" E eu perguntei: "Uai, mas você não queria que eu atendesse?" Ao que ela prontamente retrucou: "Não, não é isso. É que da outra vez você não atendeu. Como você estava demorando eu já estava pensando em uma mensagem para deixar em sua secretária eletrônica. Mas agora deixa prá lá. Que saudades de você, amiga!" E rimos, rimos muito. Marcamos um econtro que copio abaixo, ipisis literis, do seu blog:
Imperdível. [De im + perdível.] Adj. 2 g. Que não se pode perder; em que se tem a vitória como infalível: questão imperdível, eleição imperdível, estréia do show de Flávio Henrique com Sylvia Klein dia 24 e 25 de Novembro de 2003 na Fundação de Educação Artística, às 21h.
Ao saber que a Anna gostaria de me convidar para um show do Flávio Henrique, automaticamente, milhares de coisas e cenas e palavras vieram á minha cabeça. Assim mesmo, todas juntas e ao mesmo tempo. Lembrei-me de um dia, mais ou menos há dois anos, quando fui levar um amigo na casa da Anna. Aliás, na deliciosa casa da Anna que um dia irá se transformar em uma deliciosa escolinha cheia de crianças pululantes e faladoras de latim e de inglês, que se passarem um pedacinho só da infância delas com a Anna serão, com certeza, pessoas melhores para o resto da vida. Voltando àquele dia... ainda no carro minha conversa com o Marcelo foi mais ou menos assim: Marcelo, chegando lá a Anna Barbara vai colocar o CD do Flávio Henrique para você escutar. Quem é Flávio Henrique? É um músico mineiro muito bacana, eu sei que você vai gostar, mas se você não gostar não diga nada a ela que ela ficará muito chateada. Aliás, chateada não, ela vai te mandar embora, e eu não vou junto. Chegamos, entramos, Anna Barbara cumprimentou o Marcelo com a doçura e simpatia que lhe são características e disse: Sente-se. Espere só um minutinho que eu vou colocar uma música para a gente. Você conhece Flávio Henrique? Antes que o Marcelo respondesse pois sua boca ainda estava meio torta na iminência de um sorriso ela continuou: Se ainda não conhece vai adorar, não tem como não gostar dele. As músicas dele são tão... E assim se foi mais uma noite. Quantas lembranças, deliciosas lembranças, carregadas de sorrisos e beijos que abraçam com o olhar da memória.
Ju e Anna Barbara, ou seria: um pedacinho da Anna Barbara e Ju na casa da Lena, em Tiradentes, ano passado. Foi por causa da Anna Barbara (assim, com dois "ennes" e sem acento como a sua tataravó) que eu criei o Conto de Réis.
Arco-íris Helena Kolody
Arco-íris no céu.
Está sorrindo o menino
Que há pouco chorou.
Não tire da minha mão esse copo
Não pense em mim quando eu calo de dor
Olha meus olhos repletos de ânsia e de amor
Não se perturbe nem fique à vontade
Tira do corpo essa roupa e maldade
Venha de manso ouvir o que eu tenho a contar
Não é muito nem pouco eu diria
Não é pra rir, mas nem sério seria
É só uma gota de sangue em forma verbal
Deixa eu sentir muito além do ciúme
Deixa eu beber teu perfume
Embriagar a razão, porque não volto atrás
Quero você mais e mais que um dia
Não tire da minha boca esse beijo
Nunca confunda carinho e desejo
Beba comigo a gota de sangue final
15:35 Hoje é feriado nacional. Quando eu era pequena achava que o feriado, sinônimo de dia de não ir à escola, era por causa do aniversário do meu pai, ou seja: 15 de novembro o Brasil parava por causa do aniversário do meu pai. Não era dia de ir para a escola, era dia de ficar em casa e comemorar, de comprar presentes para ele, de fazermos surpresas, escrever cartinhas e cartões, de almoçarmos juntos, de enchê-lo de beijos e abraços. Até hoje ainda gosto de pensar assim... feliz aniversário, Pai!
Se tudo é para ontem, se a vida engata uma primeira e sai em disparada, se não há mais tempo para paradas estratégicas, caímos fatalmente no vício de
querer que os amores sejam igualmente resolvidos num átimo de segundo. Temos pressa para ouvir "eu te amo", não vemos a hora de que fiquem estabelecidas as regras de convívio: somos namorados, ficantes, casados, amantes? Urgência
emocional. Uma cilada.
Associamos diversas palavras ao amor: paixão, romance, sexo, adrenalina, palpitação. Esquecemos, no entanto, da palavra que viabiliza esse sentimento: paciência. Amor sem paciência não vinga. Amor não pode ser mastigado e engolido com emergência, com fome desesperada. É preciso degustar cada pedacinho do amor, no que ele tem de amargo e de saboroso, no que ele tem de duro e de macio, os nervos do amor, as gorduras do amor, as proteínas do amor, as propriedades todas que ele tem. É uma refeição que pode durar uma vida.
18:06 E Deus criou o Homem... está assim, escrito lá, pelo homem. Mas não seria: e no sétimo dia já estava enfastiado das suas próprias incertezas, cansado das mesmas dúvidas, e o Homem criou Deus.
01:20 O fato é que eu me prometi desligar o computador 01:00. Se agora são 01:20 nem preciso dizer que não consegui: ainda est(ava)ou trabalhando. O tempo, muito menos minha cabeça, não param. Eu poderia não contar isso, ou poderia alterar as horas para desencargo de consciência, mas fico feliz que alguém tenha vindo aqui no blog procurar por Mário Quintana e tenha me lembrado, mesmo sem saber, de que "O tempo é apenas o ponto de vista dos relógios".
Ultimamente tenho pensado muito nas casas que constitu(iam)em o patrimônio histórico de Belo Horizonte, mas também tenho pensado muito em Dom Casmurro. Pela música que não me sai da cabeça, acredito que tenho pensado muito mais no primeiro.
Era uma casa muito engraçada, não tinha teto / Não tinha nada / Ninguém podia / Entrar nela não / Porque a casa não tinha chão / Ninguém podia dormir na rede / Porque na casa não tinha parede / Ninguém podia fazer pipi / Porque penico não tinha ali / Mas era feita com muito esmero / Na rua dos bobos, número zero!
Leis de fachadas são a própria fachada: preservam a fachada. Só.
Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.
Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida.
Para mim é sempre ontem
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.
Às vezes a gente se perde, e perdidos encontramos alguém que nos ajuda a nos reencontrarmos. Encruzilhadas fazem parte do caminho. Quem tem um mapa pode ser poupado tanto dos infortúnios quanto das melhores e maiores belezas. Se a dúvida persistir, olho para minhas mãos. Eu poderia ter escolhido olhar para os meus pés, por que não o fiz?
Nem todas as coisas dependem de nós, algumas dependem só de mim.
Um pouco mais de sol... e eu era brasa Um pouco mais de azul... e eu era além Mário de Sá Carneiro
Por que Conto de Réis?
Um belo dia, há quatro anos, eu fui conhecer uma cidade, uma bela cidade, que se chama Tiradentes. Lá eu me encontrei. Encontrei o meu lugar. Mas não é qualquer lugar, é o lugar: Conto de Réis. Além de quê, quanto você acha que valem os meus contos de réis?
Eu recomendo! A hora da estrela de Clarice Lispector; Amadora de Ana Ferreira; Afrodite de Isabel Allende; Clube dos anjos de Veríssimo; Nome falso de Roberto Piglia; Os 100 melhores contos de crime e mistério e de humor da literatura universal organização de Flávio Moreira da Costa.
Entre os livros da minha biblioteca (estou vendo-os)
Há algum que já nunca abrirei.
Limites, Jorge Luis Borges
PARA UMA MENINA COMO UMA FLOR by poetinha
Porque você é uma menina como uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, que aliás você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado. E porque você é uma menina como uma flor e chorou na estação de Roma porque nossas malas seguiram sozinhas para Paris e você ficou morrendo de pena delas partindo assim no meio de todas aquelas malas estrangeiras. E porque você quando sonha que eu estou passando você para trás, transfere sua d.d.c. para o meu cotidiano e implica comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de você ser assim tão subliminar. E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre num nicho, mesmo quando põe o cabelo pra cima, como uma santa moderna, e anda lento, a fala em 33 rotações mas sem ficar chata. E porque você é uma menina como uma flor, eu lhe predigo muitos anos de felicidade, pelo menos até eu ficar velho: mas só quando eu der aquela paradinha marota para olhar para trás, aí você pode se mandar, eu compreendo. E porque você é uma menina como uma flor e tem um andar de pajem medieval; e porque você quando canta nem um mosquito ouve a sua voz, e você desafina lindo e logo conserta, e às vezes acorda no meio da noite e fica cantando feito uma maluca. E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e fala mal de mim para ele, e ele escuta mas não concorda porque é muito meu chapa, e quando você se sente perdida e sozinha no mundo você se deita agarrada com ele e chora feito uma boba fazendo um bico deste tamanho. E porque você é uma menina que não pisca nunca e seus olhos foram feitos no primeiro dia da Criação, e você é capaz de ficar me olhando horas. E porque você é uma menina que tem medo de ver a Cara-na-Vidraça, e quando eu olho você muito tempo você fica nervosa até eu dizer que estou brincando. E porque você é uma menina como uma flor e cativou meu coração e adora purê de batata, eu lhe peço que me sagre seu Constante e Fiel Cavalheiro. E sendo você uma menina como uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena; é um vazio tão grande que as outras mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê. E porque você é a única menina como uma flor que eu conheço, eu escrevi uma canção tão bonita para você, “Minha namorada”, a fim de que, quando eu morrer, você se por acao não morrer também, fique deitadinha abraçada com Nounouse, cantando sem voz aquele pedaço em que eu digo que você tem de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois. E já que você é uma menina como uma flor e eu estou vendo você subir agora – tão purtinha entre as marias-sem-vergonha – a ladeira que traz ao nosso chalé, aqui nestas montanhas recortadas pela mão presciente de Guignard; e o meu coração, como quando você me disse que me amava, põe-se a bater cada vez mais depressa. E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato a nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos – eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei, como tristes estátua ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão, de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfeitando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações – porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina como uma flor.
Sempre acreditei que fosse uma menina como uma flor e não uma menina com uma flor, por isso, e pela beleza dessa imagem, mantive aqui a minha contribuição.